Cai sobre o meu peito uma pedra de granito, quente. Não o peito, a pedra.
Sentado do outro lado da mesa olho-te quieto, creio até que parte do meu rosto empalideceu. As tuas mãos seguram pedras tão pequenas quanto feijões e ainda assim, amor, parte das minhas costelas começa a ruir. Abre-se uma pequena cratera no centro do meu peito. Grande.
O teu olhar desinteressado procura uma jarra de flores ao fundo da sala. Se eu pudesse virar o pescoço ao compasso do teu veria que estão mortas, sobre a mesa repousariam pétalas engelhadas pela falta de água e o teu olhar rapidamente se mostraria avesso à ideia de sede. Procuras outro ponto de interesse.
Sangra o chão à minha volta. Cresce dos azulejos matizados um líquido denso, encarnado. O líquido crescente trepa pelas pernas da cadeira que segura o meu peso, avança-me também pelos calcanhares até aos joelhos e dos joelhos, do tampo da cadeira onde me sento, salta até ao meu peito rasgando-o numa cratera que se estende desde o vão de entrada até ao topo da minha testa.
O teu rosto renúncia à minha morte e entretém-se com a batalha vã de uma mosca tentando escapar-se pela janela de vidro, fechada.
Três ou quatro pedras telintam nos teus dedos, morreria antes de saber de que material eram feitas.
À minha morte silenciosa decidiste levantar-te da mesa e preparar umas torradas com manteiga, a tarde tornar-se longa com as limpezas a que o meu peito te dispôs.
fiz uma viagem longa para chegar aqui e no entanto não sei onde paro. meti-me no carro e segui um pouco à deriva, quase me deixei adormecer a pensar como serias, receio ter adormecido duas vezes, por escassos minutos. quando acordei era ainda viagem e era ainda a auto-estrada a roer-me os sentidos com o vento a dar no rosto. fecha a janela, mãe, disse. começava a irritar-me a garganta e assim seria difícil concentrar-me na tua imagem. imaginar é um processo demasiado introspectivo, acabo sempre em lugares que não conheço, ao despertar. onde estou hoje?
lembro-me perfeitamente de entrar no carro e segurar-te a mão, combinámos um destino à pressa e partimos, conduzi durante algumas horas mas pareceram poucas - tu encurtava-las pousando a tua mão sobre a minha e esboçando um ocasional sorriso.
estacionei à entrada de uma casa centenária, mero acaso. espreguiçámo-nos ao sair do carro e eu deitei o olho sobre o teu umbigo que se revelou um pouco quando ergueste os braços e a camisola subiu, tens uma pele muito branquinha. subimos a rua em direcção centro e tiraste algumas fotografias, dezoito fotogramas para ser preciso, antes de nos sentarmos num parque. falámos pouco. penso que não seremos de muitas palavras, ou talvez sejamos apenas economistas certeiros. gosto de estar contigo, sussurro sem ter a certeza se chegaste a ouvir. ficámos por lá mais quinze minutos.
fecha a janela, mãe.
subiste até ao ponto mais alto do castelo e apontaste o horizonte, eu olhei antes a ponta dos teus dedos e recordei a forma suave de ser das tuas mãos. disseste: gosto muito da cidade vista daqui, luís. olhei então para a cidade: árvores rompiam entre casas e ruelas onde vagueavam pessoas como fosfenos. uma brisa súbita fez o teu cabelo esvoaçar como num filme, gostei muito de ti nesse momento, mas resisti ao impulso de dizer que gostaria de viver contigo, afinal somos verdadeiros aplicantes da economia das palavras.
tenho o braço dormente e à minha frente alguns quilómetros de estrada, só depois o destino. agora. o destino é este, praia e mar, já entardece e o sol começa a sua viagem descendente para o precipício do oceano. onde pára afinal o castelo que falou a suavidade das tuas mãos?
Há três meses que nos cruzámos no aeroporto e há três meses que não tenho feito nada senão tentar regressar a este porto de passagem. Todos os dias desde que uma ocasional fileira de bancos nos juntou lado a lado e que do teu caderno a cair nasceram as primeiras palavras que não existo senão para te ver de novo. Temos muito que agradecer às novas tecnologias, a troca de emails trouxe-me a tua cor favorita e o último filme que viste no cinema; o número de telemóvel conversou-me sobre a paixão pela música e como um dia gostarias que todos conhecessem a tua voz. A tua voz que ilumina o meu peito todas as noites é florida e resplandecente.
A manhã de hoje viveu-se sobre o peso das malas e a inquietação natural dos reencontros, não me sais da cabeça - ainda que creia ter sido o coração que me tomaste sem retorno. Por agora, tomo de embarque o avião das onze e quarenta.
Um homem de negócios senta-se ao meu lado e eu deixo que a minha respiração embacie o vidro com vista final para Lisboa. Horas depois, as nuvens começam a dissipar-se e a altitude decrescente revela finalmente a silhueta da tua cidade, São Paulo é um polvo urbano mas ainda assim consigo reconhecer a tua morada por entre os tentáculos da cidade, e dou por mim a desejar que o avião desça a pique e numa manobra arriscada estacione em frente à tua porta. Amor, apressa-me este avião tartaruga que senão eu juro saltar pela porta de emergência, afinal urgência é tudo o que se adequa à pressa dos meus braços em volta do teu corpo e à tua presença eterna eu não sei como adiar por muito mais tempo.