Um ano. Os dias seguem numa sequência tacitamente previsível. Amanhece, sol, chuva, anoitece. Os dias caem em cadência regular, vive-se. Não menos, nem mais. É presente e naquele momento existe-se tanto como em qualquer outro. É um dia vulgar. Todos os dias são vulgares se repetidos vezes suficientes, mas para olhos novos serão sempre surpreendentes. E se acordar com novos olhos todos os dias?
Durante um ano o auxílio aos meus olhos foi uma película fotográfica de 35mm, ora a cores, ora sem elas. Durante todo esse tempo, foi a gaveta mais funda do meu quarto que arquivou os registos sem qualquer emulsão. Os dias contaram meses e por cada fotografia esquecia-se um pouco da anterior. O tempo dilui tudo. Os meus dias contaram um ano surpreendentemente vulgar. Naturalmente esquecido.
Findo o ano, era chegada a altura de revelar todas as suas fotografias. 511.
Assim, como se caísse ao poço, afogava-me novamente em cada momento de cada dia, sentia-se o cheiro, o toque, as canções. Fintei o tempo. É afinal tudo isto que há na vulgaridade dos meus dias.
"in vulgar" é a obra que surge depois. Não foi planeada para ser o que se tornou, mas nasceu de si mesma: as fotografias, as ligações furtuitas entre elas, os amigos, os conhecidos, os alguéns, a normalidade, a rotina - a minha, não a de outros. Juntas, as imagens formam um emaranhado transitável onde se partilha uma parte íntima do que os meus olhos viram. Os meus olhos são vulgares.
Luís Belo
Nasceu na terra de João Torto, em Viseu, 1987. Cresceu a desenhar. Levou palmadas nas mãos por usar as paredes da casa como telas. Foi para a escola. Aprendeu a desenhar em papel. E em madeira. E nas paredes. A fotografia cresceu com o mesmo entusiamo, primeiro a digital, depois a analógica. Mais tarde licenciou-se. Actualmente, ilustra, fotografa, filma e inventa.